Friday, October 23, 2009

O melodrama infantil das cartas esquecidas

A última carta de amor. Desta vez não há volta. A última. Rasgada diversas vezes para que fosse perfeita. Saída de impulso mas relida, e relida, e relida, e por isso alterada, e rabiscada com mais ou menos raiva, mais ou menos saudade, mais ou menos ternura, mais ou menos amor. Rabiscada e riscada e chorada. Um alívio. Uma pedra de novo atirada, presa, bem no centro da boca que não abre. Queres sair? Quero que saias? Será que ficas? Será que volta?
Escrevi a última carta de amor. A derradeira palavra, o gesto final, um último grito, suspiro, apelo, sussurro, se quiseres sussurro apenas, sopro ao teu ouvido como tanto gostavas, sopro as palavras que não sabes dizer mas que gostas tanto de ouvir.
Carta. Palavras cravadas em mim que o vento te leva, que nunca retens, que nada te fica, passageiro, entra forte e sai depressa, como o amor, que te enche de alegria e esfaqueias na ânsia da juventude desregrada, no mercado de mulheres que achas que tens à porta, que te oferecem de mão beijada, fica com a minha filha, fica, é moça casadoira, fica com a minha filha que, verás, o juízo não te amola e tem orgulho em que vás à caça, fica com a minha filha que vive a vidinha simples dos seus 22 anos, que é bonitinha e sossegadinha e a família de bom nome. Um dia ficas, sabes disso? Um dia vais mesmo ficar, e a cidade toda em festa, e tu levado em braços, grande herói das caçadas, o profissional de sucesso, o homem viril, o mais bonito, o mais charmoso, o mais simpático, o presidente da Junta, o rei da aldeia. Podias ser tão melhor, sabias? Se fosses tudo o que em ti pode ser serias quase perfeito. Se olhasses mais à volta e menos para o centro de ti.
A última carta, juro, e não te torturo a cabeça em voltas indescritíveis, não falo em metáfora, não complico. Tudo simples, como gostas, tudo evidente, tudo racional. Em mim fica o inominável, que a vida é bem mais que a clareza da clássica palavra, mais do que a lógica matemática da conjugação de sinalagmas. A vida é sonho. A vida é um turbilhão cá dentro. A vida mostro-a e aceito-a em mim.
A finalíssima carta, depois não insisto mais. Que é pouco já o que digo... Palavras gastas pelo tempo, pelas horas que quis matar em mim, pelas esperas incansáveis, pelas vãs esperanças, pelo vazio que em ti cresceu, pela campânula em que me escondo agora, alheia a choques de realidade, distante de um mundo de mundanas sensações sentimentais.
Última carta de amor...que só talvez envie. Para que a leias bocejando o aborrecimento de um ego imenso a inflamar. Para que depois, quase indiferente, a deites para o lixo. E então sim, finalmente, como tanto queria, a última carta de amor da minha vida.

Monday, October 05, 2009

Almas Penadas

Quero que teus sejam
os pés da minha tortura,

Em cada dança girando
iluminados,

Como num sonho
teus pés
cheios de nada,

Vazios de tudo
rodopiando na mesma estrada.

Quero que à noite
em mim se calquem só por ti,

E de luas novas
em mim se vazem orifícios,

Quero que o sangue escorra imenso
em cada esquina,
e num só grito o céu se abra
e me soterre.

Teus pés ainda
Por entre lama e musgo,
Pelas frestas da calçada,
Entranhados na solidão
da pedra escura,

Ainda choram,
crianças perdidas na escuridão,
Ainda gemem,
orgasmos abafados pelo medo,
Ainda vivem,
eterna presença indesejada,
fantasmas que insistem em não
morrer.

Calçada sou à sombra da tua passagem.
Pisada sou à força de vivo te querer.

Sunday, September 13, 2009

persona

Juraria que os mesmos olhos, o mesmo azul esverdeado em que descobri pontos cinzentos no centro, perto da pupila. Os mesmos olhos, quer se acredite quer não, com a mesma tendência para focar o pormenor que passa ao lado aos demais, sempre tão minucioso na sua observação do real. Do fisicamente real.
Olhei os mesmos olhos, tão dentro como outrora, tentado entrar tão fundo, procurando insaciavelmente ver. Lembrei uma lágrima de emoção mal escondida, lembrei uma confissão, lembrei beijar-me a alma com um olhar, lembrei procurares ser-me mais. Olhei os mesmos olhos para deles te puxar, e neles só estáticas sombras, não mais sorridentes brilhos, não mais emoções palpitantes.
Tentei as mãos mas os impulsos suculentos já lá não estavam, oscilam agora entre o tédio e a hiperactividade, um calado "despacha-te! raios partam a gaja!", ou na melhor das hipóteses "que horas são?", contentando-se em remexer um jornal ou pegar em mais um cigarro.
Os lábios - antes tocados, lambidos, beijados, roçados, mordidos - movem-se descoordenadamente, emitem sons que já não reconheço, parecem vazios, quase perdem a vermelhidão, quase já nem os escuto, nada ecoa em mim.
Olho-te agora e é já nada o que sinto, o nada...que é pesado e sombrio, que é abafado e torpe. E em ti vejo já outros rostos antigos, outros antes de ti, outros que foram amores para a vida, paixões arrebatadoras, vidas construídas ou meros encontros casuais. Estranha a minha forma de viver, todos os que me cruzam me marcam e me fazem de alguma forma falta. Em ti também caras de amigos que afinal não quiseram mais sê-lo, faces de quem foi uma vida inteira, antes de qualquer homem vinha ela, porque melhor amiga e isso, sem dúvida, para sempre, porque tantas peripécias de ombros chorados e escudos protectores. No fim para todos o mesmo vazio, a mesma incerteza, a mesma dor. Lembrá-los sempre presentes esquecendo o mal (por vezes tanto...), lembrando o bom mas sem conseguir afastar a mágoa. Olhar-te e não entender não porque partiste, mas porque insistes em fingir que não foi assim tão importante, que não queres saber, que afinal dois estranhos e não te conheço, e não me vês mais pelo que sou, que já não sou, que não marquei, não fui. Será arrogância ou insegurança querer ser eternamente recordada nos corações de quem por minha vida passa? Talvez ambas. Talvez nenhuma. Se eu lembro tudo mesmo o que é já longínquo, porque é que os outros não hão-de lembrar? Lembrar que houve tempos em que se ria em uníssono...E juro que quase voavamos.
Não é o tempo não voltar para trás que me atormenta, é o seu rastro não ficar cravado nas almas alheias das fisionomias que me tocam. Tocam e fogem, sempre. Tocaram-me e foram-me... Será que eu fui? Talvez um dia relembrem, quando ao olhar para um rosto estranhem nada do que o definia lá estar.

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Monday, September 07, 2009

Impressões de uma fuga adiada

Nevoeiro. Praia de Espinho ao lado. Comboio. O areal salpicado de arbustos e não ervas daninhas onde a fertilidade se esvai. Praia. Nevoeiro e maresia. Posso correr? Ali parece respirar-se melhor. Posso nadar? Ali parece que se sente menos. Posso ficar?
Ainda carris e carris a perder de vista, esta força que me puxa segue frenética e não sei mais de onde vem. E de onde venho? Para onde vou? Lá fora tudo tão inerte, uma espécie de selvática natureza virgem, uma espécie de nova cidade a descobrir, um novo mundo.
Pergunto-me se poderei talvez hoje ficar. Parar. Ás vezes penso como seria parar o tempo... Congelar um início de acção, o papel que cai fica suspenso, a boca escaqueirada da senhora ao lado, o acidente quase a ocorrer, e eu movendo-me entre a alheia imobilidade tão frágil. Nos filmes esta imagem tem sempre uma certa névoa associada que não entendo, mas parece-me bem o dramatismo. Aqui a neblina é natural,nem preciso de artifícios sofisticados para alargar a imaginação. A imaginação respira maresia, emerge dela, é o tempo parado da praia estática.
A rota traçada quase me leva daqui, e cravo os dedos à imagem da praia de onde não quero sair, cravo os dedos ao tempo nulo que quero que fique, cravo os dedos cerrando os olhos, no meu sonho posso estar onde quiser, no meu sonho posso ser o que quiser, no meu sonho não tenho mais por que fugir.

Sunday, August 30, 2009

CODA

Ainda é dia lá fora? Há janelas aqui mas não consigo ver, o céu parece não ter movimento, nem cromático nem de qualquer outro tipo, as nuvens existem em neblina, nada formam, nada são, vazias de tão cheias. Assim também os rostos que me circundam, entram olhando para baixo, quase autómatos, sem vontade de chegar, sem saber como partir. Acho que chegamos todos à espera que o tempo mude, um raio de sol, uma razão para existir. Nada lá fora se move, e as palavras cá dentro parecem-me sempre iguais, sempre as mesmas por vozes diferentes, em estórias de vida (em si verdadeiras Histórias) sempre tão semelhantes, em gestos envergonhados, em gestos raivosos, em gestos contidos. Como o tempo, contidos, com medo, quase inertes, quase vivos. Acho que vimos todos à procura da nossa multidão, onde nos iludimos que somos um grupo para que afinal fiquemos sózinhos.
Esqueci como chorar, sabias? E tu és afinal já como tantos, como todos, como nenhum. E tu não és. Mais uma vez não és tudo o que poderias ser. Ou eu não sou tudo o que quero. Ou eu tenho medo de voltar ao ser que fui e por isso fujo antes de saber, antes de procurar no céu denso um raio que penetre um manto que sou eu fora do mundo.
Já nem me importa se faço ou não sentido. O mundo não faz qualquer sentido aqui (se em algum lado). Os olhares não se cruzam, as palavras não são mais que estacas que espetamos ou retiramos de nós próprios, o conforto que esperávamos não vem, e no final nem o alívio de saber que há quem sinta o mesmo, que não somos os únicos, nos salva. Em última análise somos todos o mesmo conjunto de decrépitos corpos que se cortam e se desmembram e se morrem em nome de outro alguém, em nome de um despojamento de si próprio, em nome de nadas que inventamos para pintar os tecidos incolores desse firmamento que nunca muda, sufocante permanência de vazio, um precipício que nunca mais vem.

Saturday, August 29, 2009

Delirante vento da madrugada e suas reflexões insípidas

Era para ter saído. Era para ter trabalhado num projecto antigo que se arrasta. Era para ter lido, talvez, e certamente dormido, era para ter escrito algo de útil e ter programado os dias, nova agenda, afazeres obrigatórios e culturais deleites de espírito, tudo delineado em alemã exaustão. Não quero. Gosto da espontaneidade do vou e pronto, que não posso, e de dizer hoje quero Porto e partir, também não posso. De tanto não poder ardem-me amarras. E para meu próprio espanto já não doem.
Passo a vida a querer fugir, querer mudar, saltitar de nova em nova actividade, aprender mais, conseguir mais, ver mais, e apesar disso no fundo somente fugir... É não estar bem em parte alguma, é nunca nada me chegar. Quis ser tanto e tudo o que não sou que me perco e assim prejudico o que ainda posso. Escolhi estudar Direito pelos mesmos motivos que antes quis ser psicóloga: ajudar os outros, dedicar-me a um bem maior, lutar por algo melhor, lutar por um sonho, ser possível, ser mais suave, a vida existir em todos de facto. Escolhi deixando um pouco para trás...Escolhi o racional desafiante, deixei o impulso criativo, e nunca soube desligar-me, por isso o cinema voltou, por isso se apoderou, por isso a música para trás com lágrimas que fui guardando. Tenho demasiada vida pulsando cá dentro, irrompendo em actos de tudo a que me dediquei ou deixei de dedicar, uma imensidão de ser que nunca aprendi bem a explorar. Amarras com que me prendo por medo ou sede de algo que não tenho, amarras de tempos que desperdiço em homens que julgo poder salvar, vidas disfuncionais e intrigantes, amores impossíveis que quero tornar meus. Assim me perco, assim me dou, assim me escondo. Escrever é tudo o que me resta, esperando um pouco de talento no final, esse em bruto ou potencial que guardo longe, porque até aos 30 anos não se publica, não é Virginia? Até aos 30, símbolo da maturidade intelectual e criativa.
Enquanto espero uma luz, que se o prolongado estado de insónia ficar nunca virá, vou planeando, e fazendo, às vezes fugindo, às vezes ficando, às vezes acreditando que é possível tudo ao mesmo tempo, outras decidindo mudar, e assim me defino e me vou sendo, jovem criança em corpo que se quer adulto, anciã alma em corpo jovem. Um dia por inteiro. Um dia. E até lá ficam as estrelas, fica Maria João cantando pela enésima vez ao vivo no Hot Clube, fica a sua voz forte de terra e divinamente suave eternamente incrustada em meus ouvidos, ficam as estrelas no céu e um cavalo branco ao longe. Hoje não me importa se desce ou não. Não quero mais ser salva. Quero encontrar o eu de que tanto fujo. E calando um antigo céptico suspiro digo: talvez até goste de mim. Só aí outro será, e sei que não intervenção divina, não conto de fadas, não alado salvador, mas ao invés bem real, dançando bem perto, apertando-me, o vento rodeando e depois...o que o vento esconde só a nós pertence, um mundo outro que sejamos nós.

Thursday, August 27, 2009

Invicta

Gosto da moleza do Verão, tudo se extende quase a um infinito desconhecimento de horas, manhãs que passam devagar até às nove da noite e sem sabermos lá se foi o dia.
Gosto dos Verões do Porto. Vento e gaivotas, calor e humidade, um dia nublado escuro quente, um dia sol imenso e frio das correntes nortenhas, o desordenar da amplitude térmica.
Gosto de vaguear pelas ruas do Porto com vozes de vogais abertas e cantorias inusitadas, de gordura a toda a volta mas a cidade estranhamente limpa, dos músicos na Ribeira e dos engraxadores de sapatos em São Bento, das meninas alternativas de cabelos pretos (acho que é pré-requisito) e das "femmes fatales" de pastilha mascada entre grunhidos, dos corredores do Parque e dos seus cisnes, dos longos labirintos de Serralves e da Casa da Música, do vinho do Porto (ó tanto!) e da francesinha, de descer os imponentes Aliados e sentir que sou livre, o mundo é meu aqui em tons cinzentos clareados pelo azul claro do dia, e se turquesa fosse diria ser já meu fascinado olhar em si reflectido.
Sem saber porquê o Porto tornou-se uma espécie de refúgio, um escape, encontrar no Douro uma certa liberdade, uma certa auto-estima, uma certa calma. Vir ao Porto e saber que sou de cá e sou de fora ao mesmo tempo, sentir a calorosa recepção e a impiedosa crítica, sentir o rio, sentir as ruas, sentir as gentes, sentir. Embrenhar-me em livros e espectáculos, dança acima de tudo, olhar os movimentos de corpos iluminados e ao som forte da música envolver-me numa espécie de reencontro comigo.
Gosto de pessoas que sabem sorrir, que sabem sentir, que sabem abraçar, que sabem só com os olhos falar, que sabem ser cordiais, e ser educadas, e ser cavalheiros, e ceder o lugar à velhota no autocarro, e olhar-nos a sério, de frente, expressando em palavras o que de verdade a alma sente. Gosto de pessoas que dançam com as mãos, em entrelaçados dedos de emoções não ditas.